O DIA EM QUE GETÚLIO VARGAS MORREU EM AMARAJI, POR JOSIAS GOMES

Em 1954 era prefeito de Amaraji Sebastião Gomes de Andrade, senhor de engenho de Riacho de Pedras, avô de Fernandinho de dona Abiací, como carinhosamente o conhecemos.

Naquele ano, o Brasil estava numa convulsão social de dar gosto. Carlos Lacerda e sua língua afiada soltava vitupérios de toda natureza contra Getúlio Vargas, através de seu jornal Tribuna de Imprensa. A mídia golpista latia alta desde sempre. Getúlio que havia sido ditador por longos 15 anos de 1930 a 1945, nas eleições de 1950 voltou a ser presidente do Brasil. Só que desta vez, através do voto popular. Enfrentou uma oposição feroz da grande imprensa, da elite brasileira, dos militares e da classe média que jurava ser rica.

Getúlio era um nacionalista e não tinha nada de esquerda, mesmo assim contrariava os interesses da burguesia nacional. Entre as suas principais realizações estão: criou e implantou vários direitos trabalhistas, entre eles, o salário mínimo, consolidação das Leis do Trabalho, semana de trabalho de 48 horas, carteira profissional e férias remuneradas, aumentou 100% o valor do salário mínimo.

– Vargas fez fortes investimentos nas áreas de infraestrutura: criação da Companhia Siderúrgica Nacional, Companhia Vale do Rio Doce e Hidrelétrica do Vale do São Francisco. Além da nossa Petrobras. Dentre outras medidas de cunho estritamente nacionalista ou em defesa dos trabalhadores.

A elite como sempre não queria a volta de um líder nacionalista, montou uma oposição baseada em mentiras e a velha lorota de corrupção. A perseguição era grande e Getúlio não resistindo a pressão, se suicidou. “Saiu da vida pra entrar na História”. Comoção nacional.

Pois bem: eis que estava em Amaraji naquele fatídico dia, o ainda pouco conhecido do público em geral, mas já defensor dos camponeses pernambucanos, Francisco Julião, futuro organizador das ligas camponesas.

Nas eleições daquele ano, Julião foi candidato a deputado estadual, fazendo dobradinha com o grande médico e humanista Josué de Castro. Autor do best-seller Geografia da Fome. Ambos se elegeram.

Como vocês sabem, Francisco Julião se transformou numa lenda. Defensor intransigente dos camponeses, que ao ajudar na fundação das ligas camponesas, sem saber,
no entanto com a intuição dos grandes líderes, àquela época, estava contribuindo com a construção do maior movimento de massas rural já visto no mundo.

O engenho Galiléia em Vitória de Santo Antão foi o início de tudo. Francisco Julião ajudou a fundar em primeiro de janeiro de 1955 a Sociedade Agrária e Pecuária dos Plantares de Pernambuco. O líder pernambucano se tornou mundialmente conhecido por sua luta nas Ligas Camponesas.

Agora a pergunta: o que Francisco Julião estava fazendo em Amaraji naquele dia de 24 de agosto de 1954? Foi participar de uma audiência no fórum com o juiz da comarca. Na certa pra resolver algum conflito envolvendo o senhor de engenho e camponeses.

Naquele dia que não dormiu, Julião estava na hoje praça Dr. Jorge Coelho da Silveira – pai de Mingo, Dr. Deda, estes já falecidos – e de dona Salete – quando ouviu tocar no alto-falante a nona sinfonia de Beethoven – eu acredito que tenha sido o alto-falante do Cine Teatro Amaraji, lembram dele? O célebre Julião logo percebeu que algo de muito grave estava acontecendo, afinal não é comum em uma cidade tão pequena quanto Amaraji à época tocar Beethoven. O comandante dos Camponeses cismou com aquele acontecimento e ao perguntar a uma pessoa o que havia acontecido, veio o esclarecimento: Getúlio Vargas havia se suicidado.

Na audiência, Julião interessado em voltar logo para Recife fez uma petição oral pedindo adiamento da audiência em função do ocorrido. Afinal tinha morrido ninguém menos do que Getúlio Vargas. Pedido que foi sumariamente negado pelo juiz pelego. E ainda teve de ouvir do magistrado o porquê dele estar desorganizando os camponeses que, em dia de semana, ao invés de estarem trabalhando para seus patrões, vieram pra cidade. Francisco Julião sempre destemido prontamente respondeu a excelência. Argumentou que por serem as audiências públicas costumava trazer os camponeses pra assistirem a mesma e compreenderem como era o funcionamento da justiça brasileira.

Sei que esta prosa pode não conter todas as grandezas dos personagens. Contudo é um registro histórico que vi na biografia de Francisco Julião e resolvi socializar com os meus conterrâneos. A nossa Amaraji está sempre atada aos grandes líderes nordestinos.

Viva Francisco Julião, a lenda da Liga Camponesa.

– Josias Gomes – Deputado Federal do PT/Bahia licenciado e atualmente titular da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR).

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