TORCEDOR BRASILEIRO TAMBÉM EM CRISE, COM ÉLCIO OLIVEIRA

Élcio Oliveira, radialista, comentarista, cronista, árbitro, professor de Educação Física e colunista esportivo do site Amaraji Notícia.

Já discutimos a crise do futebol brasileiro em quase todas as suas esferas. Tudo precisa ser melhorado. Os dirigentes do país são sofríveis, isso é quase um consenso. Os treinadores do país estão pouco atualizados ou ainda vivem muito na base da motivação, isso é um tema mais polêmico mas cada vez mais essa ideia se firma. Os jogadores brasileiros já não são tão craques como no passado, algo que tem sido detectado por quase todos. A imprensa brasileira nem sempre atua na cobertura do esporte da melhor forma, na Copa mesmo tivemos algumas barrigas e gafes históricas por parte de alguns envolvidos na cobertura. Mas o que podemos falar do consumidor maior do produto futebol: o torcedor? Será que no Brasil a torcida também não deve ser questionada, será que também não precisamos melhorar os nossos torcedores? Em tese, eles seriam a base de tudo. Formando melhores amantes do futebol, teríamos melhores dirigentes, melhores técnicos, melhores atletas, melhores jornalistas, melhores cidadãos até.

Como analisar o torcedor brasileiro então e como apontar uma crise nesse “setor” do futebol? Primeiro, saiu há poucos dias uma nova pesquisa de torcidas no futebol brasileiro. E ainda a maior torcida do país é a não torcida. Isso mesmo: 23% dos brasileiros, segundo o Datafolha, não torcem para nenhum clube de futebol. É bom lembrar que a pesquisa é feita com pessoas de 16 anos ou mais. Quase ¼ dos brasileiros, portanto, não conta com um time de preferência. E ainda falamos que o Brasil é o país do futebol… Há muita gente ainda que torce por algum time e que, percebemos nas ruas, está desgostosa, desanimada, desinteressada com o futebol. Tanto que discute-se agora até a queda na audiência nas transmissões de jogos na TV aberta. Talvez o público que acompanha o futebol esteja ficando mesmo cada vez mais seleto no país. O povão está cada vez mais fora do estádio por conta das novas arenas e dos preços salgados dos ingressos. Os clubes batalham cada vez mais para ampliar seus sócios-torcedores, e quase todos têm programas que são verdadeiros fracassos. A paixão dos brasileiros por seus clubes é sabidamente grande, mas isso parece ter um limite financeiro, algo compreensível, mas parece ter também alguns outros limites. Não sei se a falta de credibilidade dos clubes e dos dirigentes, assumidamente maus pagadores, afeta o interesse do torcedor, possivelmente sim, mas ainda penso como muitos que o brasileiro em geral não gosta do esporte, gosta é de ganhar. Vemos isso em outras modalidades, com grandes paixões sazonais por automobilismo e tênis de acordo com o sucesso de determinados atletas. No futebol, também temos muito esse “torcedor-modinha”. Parece ser algo típico no Brasil. Pegue como exemplo recente o caso do Corinthians. Na pesquisa Datafolha em abril de 2010, o Corinthians figurava pela primeira vez com 14% da preferência nacional. Como o Flamengo apresentou uma queda de 19 para 17% na ocasião, foi possível falar até em um empate técnico na pesquisa, que tem dois pontos de margem para mais ou menos. Em dezembro de 2012, com o Corinthians campeão do mundo após ter sido vencedor de sua primeira Libertadores, o empate técnico virou empate mesmo para o Datafolha: 16% para Mengão e Timão. Menos de dois anos depois, eis que o Fla abre nova frente: 18% a 14%. Tudo explicado pela margem de erro, mas será que muita gente não se disse corintiana em 2012 por conta daquela temporada histórica do alvinegro paulistano? 
Os demais clubes brasileiros pouco mudam suas posições e seus patamares nas pesquisas do Datafolha. O São Paulo, que alardeia ser a “torcida que mais cresce no país”, não vê esse crescimento todo nas pesquisas. Está estagnado em terceiro lugar, que já é motivo de orgulho, mas não tem como competir com Flamengo e Corinthians a menos que domine o futebol brasileiro como o Bayern dominou a Bundesliga ou como o Manchester United dominou a Premier League. Como isso é praticamente impossível, inviável, o São Paulo tende a permancer sempre com 9% ou 8% da preferência nacional. O Santos desfrutou neste século das gerações Robinho/Diego e Neymar/Ganso mas não passa dos seus 3%, assim como o Cruzeiro. O campeão brasileiro que ruma para o bi tem grande performance na era dos pontos corridos no Brasil, mas não consegue sair dos mesmos 3% do Internacional, que ganhou Libertadores e Mundial neste século e mesmo assim não deu salto nenhum nas pesquisas. O Atlético-MG mesmo saiu da fila de grandes títulos, mas, mesmo com a Libertadores, continua limitado a seus 2%. 
Saindo do tema das pesquisas, que pouco mudam com o passar dos anos, voltemos a refletir sobre o torcedor em si. Nos estádios brasileiros agora a moda é fazer adaptações da “Decime qué se siente”, mantra dos argentinos durante a Copa. Não é a primeira nem será a última vez que torcidas brasileiras copiam de forma descarada torcidas argentinas. Isso é comum em nossos campos. Parece que os brasileiros se assumem mesmo como piores que os argentinos nas arquibancadas. Os argentinos têm fama de empurrar até o fim seus times e de cantar o tempo todo. Lá eles pegam músicas famosas, como “Bad Moon Rising” do bacana Creedence Cleawater Revival ou mesmo o pegajoso “Ilariê” da Xuxa, para empurrar seus times. Aqui esperamos o que os argentinos cantam para copiar porque eles sim sabem o que é “alentar”. Quase todas as torcidas dos clubes grandes brasileiros fizeram versões para o “Decime qué se siente”. “Vamos, vamos Corinthians, que esta noite teremos que ganhar” embalou o Timão na conquista de sua primeira Libertadores. Tal música é mais um exemplo de importação de cântico do torcedor. Parece que falta criatividade mesmo para as torcidas brasileiras, tanto que até forçaram campanha durante a Copa para alguém aposentar a batida coxinha “Sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”. Nada muito melhor aconteceu, o Brasil perdeu de 7 a 1 do “Decime qué se siente”. Nasceu uma resposta brasileira em defesa do Pelé com a música “Mil gols, mil gols”, mas poucos parecem no Brasil amar Pelé como na Argentina amam Maradona. A torcida do São Paulo agora canta “Cem gols, cem gols” para o seu amado Rogério Ceni, mas esse é no fundo um caso de versão da resposta aos argentinos. 
É cada vez mais comum no Brasil torcedor causar perda de mando de seu clube, às vezes batendo em jogador e até torcedor do próprio clube. Não raramente vemos invasões a centros de treinamentos, pressão no aeroporto e protestos nos estádios após uma ou duas derrotas. Parece mesmo que os clubes brasileiros não podem perder nunca, parece que são esquadrões invencíveis. Falta paciência ao torcedor brasileiro, que costuma vaiar o time mesmo em jogos decisivos se não sai um gol logo no início da partida. Para muitos, a torcida do Corinthians é a mais fiel do país, até ganhou esse apelido. Mas poucas torcidas têm um histórico tão grande de ataques ao próprio time quanto a do Corinthians. Às vezes o time nem precisa tomar um 5 a 1 ou um 3 a 0 para as ameaças e agressões começarem. Mais recentemente, os corintianos deixaram o final do jogo da Copa do Brasil na Arena em Itaquera porque o metrô ia fechar (há muitos estádios no país que sonham há décadas com metrô por perto e não há tanto mimimi).
A média de público no Campeonato Brasileiro ainda é ridícula. Mal conseguimos colocar 15 mil pessoas por jogo em média nos estádios, e esses estão mais confortáveis e modernos. A média de público nos Estados Unidos é maior. Um torneio de pré-temporada na terra do Tio Sam tem média de 70 mil pessoas por jogo, vimos um histórico Manchester United x Real Madrid para quase 110 mil pessoas em Michigan, um recorde para o soccer em termos de público. No Brasil, a torcida aparece em grande número quando seu time está perto de ser campeão (veja que as grandes médias de público da história do Brasileiro são nos anos dos títulos do Flamengo nos anos 80 quando o Maracanã recebia frequentemente mais de 100 mil pessoas) ou quando seu time está no desespero e o clube faz promoções na venda de ingressos (vejo o caso do Flamengo, correndo risco de cair neste ano, tomando como o base o que o São Paulo fez no ano passado para encher o Morumbi e sair do sufoco). Na mídia, claro, a imprensa baba ovo de todas as torcidas, parece que todas são muito fanáticas, que todas estão sempre presentes, que todas são diferenciadas. Pelos elogios-clichês para fazer média, a melhor torcida do Brasil é uma só: a do Atlético-MG ou a do Bahia ou a do Corinthians ou a do Flamengo ou a do Grêmio ou a do Paysandu ou a do Remo ou a do Santa Cruz ou… Será que a melhor torcida é que a vai mais ao estádio? Então todas são uma porcaria aqui, pois a taxa de ocupação nos estádios brasileiros fica longe de 100%. Qualquer time de segunda divisão da Inglaterra tem torcida melhor que as nossas. Perdemos em público para a segunda divisão da Alemanha, agora o país que virou grande referência.
Daria para refletir aqui muito mais sobre as torcidas brasileiras, que adoram sair nas ruas com suas camisas quando o time vence bem um jogo importante. É claro que o futebol precisa ser repensado no país e melhorado em todos os seus segmentos. Mas incluo nisso também o torcedor. É aquela história da enchente na grande cidade. Todo mundo reclama com razão das autoridades porque faltam obras para deter a previsível enchente, mas nem todo mundo pensa direito na hora de jogar lixo pela janela de casa ou do carro. O torcedor não é o maior culpado pelo momento ruim do futebol brasileiro, claro. Ele é vítima demais nesse processo todo. Mas o torcedor deve ser mais ativo e mais participativo no futebol, sem violência. Em vez de se afastar do futebol, o torcedor que de fato gosta do esporte deve se aproximar dele para melhorá-lo e corrigi-lo na hora ruim. Como dizem muitas torcidas, nas boas e nas más é preciso estar junto.


Por Diferenciado.

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